quarta-feira, 8 de abril de 2009

"Quando havia Galos, Noite e Quintais."







Na maior parte da minha infância e adolescência o lugar onde eu sempre morei era muito bonito, quando se olhava para os lados do nascente do sol podia se ver um bosque de mata atlântica e também de eucaliptos, quando chegava a primavera, os morros e o barranco onde hoje é uma enorme favela, ficavam coloridos de amarelo, branco e lilás, os terrenos vizinhos eram todos cheios de mato, podíamos brincar com insetos os mais variados, tinha umas goiabeiras, ameixeiras, pés de maria-preta, cerca de vassourão e flores de xupim...


Toda casa tinha seu monte de areia, onde as crianças brincavam de garagem com carrinhos de plastico, me lembro do tempo em que íamos á chácara da Dona Ló para buscar agua e lavar roupa na mina com a minha Mãe, lá tinha uma lagoa e patos e cachorros, enquanto as nossas mães lavavam a roupa, nós ficávamos assistindo o Zorro.


Me lembro que as ruas não tinham asfalto e quando chovia no verão formavam-se grotões onde escorria agua limpinha após as chuvas.


Nas poças cresciam girinos os quais chamávamos peixinhos.


Os pássaros, como não! Onde estão agora os Bicos de Lata? Meu Tio pegava Sabias do Papo Amarelo, onde foram parar os Azulões? As Corroiras, e as Borboletas? As cigarras que ouvíamos no verão? Cantavam ao pleno sol de meio-dia, podíamos ouvi-las da sala de aula, de dentro de casa, do quintal, e as Arapongas que estalavam de manhã no seu canto singular!


Me lembro dos caminhões encalhados, que espetáculo que era, que emoção, a maior alegria quando as maquinas de terraplanagem surgiam...


Tem uma coisa especial que eu jamais esqueceria, todo dia meio-dia em ponto e as seis horas da tarde durante pelo menos doze anos ou até mais, todo dia o estrondo da pedreira, varias explosões! E a fumaça? Onde esta o barulho que ouvíamos a noite das maquinas quebrando as pedras?


O paraíso da viela, do fundo do quintal, da casa da Vó, da casa Irmã Maria, do Buracão, o caminho da casa da Tia Alice, eu me lembro dos cacos-de-vidro e das embalagens de danone, das descobertas nos lixos de cada terreno baldio, o cheiro da represa, como é triste saber e pior é ter que ver todo dia que não existe mais a chácara do Ubirajara, que hoje não tem mais o Castelinho e o Casarão foi derrubado a anos.


Quem não se lembra do céu forrado de pipas e dos carrinhos de rolimã? Que fim será que levou o homem que tocava uma sanfona lá no lado do São Carlos? Os hinos no auto-falante da igreja do Josias?


A festa da chegada da SABESP, as goiabas de bicho, mandiocais na beira da fossa, a própria fossa e os seus furos.


Como esquecer as diversas borboletas? E a revoada de Andorinhas? Os Urubus girando em cima das casas, lá no alto, me lembro também dos aviões! Bonitos, barulhentos, suas luzes a noite, hoje não vemos mas cavalos, nem bodes, o homem do carneiro colorido, como esquecer do Seu Jorge, o Judeu? Do Seu Francisco, do mercado do japonês, não tinha padaria, nem mercado, nem favela, não tinha lixo que não se consumisse por si. Era mais difícil, mas era mais digno, hoje o progresso trouxe uma gente que não viveu essas maravilhas aqui, não têm vinculo com esta mundo que vivemos, então eles agridem a memoria do meu pequeno paraíso, não por fazerem os barracos, mas por acharem que são donos do meu mundo, e eu nem sou índio! Imagino como é que se sentiram os Tupis e seus primos todos.


As vezes a pedreira explode, eu então me lembro um dia em que fui até lá perto para ver, fico triste pois se eu for outra vez até lá, provavelmente eu choraria.


Antigamente podíamos ver no Itapura as casas como de uma fazenda, caiadas em azul, rosa, branco, amarelo, dava uma sensação de harmonia, podia se ver o Interlagos a Chácara do Consorcio, do Martini, hoje puseram um lixão na frente do Interlagos, um monte de barracas na frente das paisagens da minha infância.


Tiros, fogueiras de borracha e tudo mais, motos, carros e CDmusic, crack, cocaína e mulequinho de 9 anos falando mais alto que consegue durante a noite e durante o dia...


Que saudade, quando Santo Amaro era longe, o patio da Igreja era enorme...


Corre! Cutia.


Caiu no chão...


Nessa época fomos felizes!





Dedico esses momentos de nostalgia á nossa pequena comunidade que habita a minha lembrança:


Zezé, Marli, Marisa, Regina,(Daniel+), Irmão Luiz, Irmã Maria,( Dona Lourdes+), Edisinho, Bete, ( Eliseu+), Paulinho.


(Zé Neguinho+), Chieba, (Borracha+), (Rose+), (Chacrinha+), Nego do Seu Benedito.


Tito, Negu tino, Elmo, Hércules, Nereu, Ondina, Rômulo, Fernando, Jailson.


Dona Arminda e Seu Sebastião e os gatos. Seu Zelão, Odair, Seu Zé Costa.


Florisvaldo! Muleque discorado.


Cacilda, Albertinho, Josué e especialmente a Miriam que hoje esta um pouco mais longe, mas que sempre esta conosco.



Quem é que não se lembra, quando a única saída para o mundo era descer a fanfula escorregando?”



Que pena.



Acácio.


Entre 1997 e 1998.

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